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Arvoredo Brasil - Instituto Agroflorestal

20/03/2012

Lucro maior com alimentos orgânicos

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Não tem pra quem quer. Com exceção de alguns países da União Européia, que apresentaram redução no número de unidades de produção orgânica certificada, a produção de orgânicos, certificados ou não, cresce continuamente. A procura, no entanto, continua maior do que a oferta.

Muito maior, aliás. Tanto que, como avalia Ming Liu, gerente do Projeto Organics Brasil, o mercado internacional de orgânicos, com cifras estimadas em 40 bilhões de dólares anuais, continua um nicho em termos de produção. “Mas considerando a demanda mundial, já é um main stream, um segmento de mercado”, compara.

Nos Estados Unidos e na Europa, dois dos principais consumidores globais (o terceiro é o Japão), responsáveis pela quase totalidade das exportações brasileiras, o consumo de orgânicos não passa de 2,5% e 2% do volume total, respectivamente. Mas a tendência de manutenção do crescimento anual, entre 20% (alimentos in natura) e 50% (algodão, cosméticos e produtos para animais de estimação), considerando os orgânicos e naturais, faz deste um dos segmentos mais promissores do mundo.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) compartilha deste otimismo. O estudo Cadeia Produtiva de Produtos Orgânicos, publicado em 2007 (um dos raros estudos oficiais na área, que ainda amarga uma carência incrível de informação), calcula que o número de agricultores orgânicos em território nacional não chega a 1% do total e ocupa apenas 0,25% da área agriculturável. “Esses indicadores modestos revelam o potencial de expansão deste mercado, em que a demanda é superior à oferta”, aponta o estudo.

Produção nacional

O Brasil já é o maior consumidor de orgânicos da América do Sul e é considerado detentor do maior potencial de exportação no mundo, segundo análise do Instituto Biodinâmico, um dos maiores certificadores de orgânicos do país. Por enquanto, perto de 70% da produção brasileira, em valor, é exportada. Estima-se que existam um milhão de hectares de lavouras certificadas, onde trabalham oito mil agricultores.

No Brasil, o pioneirismo é dos pequenos agricultores familiares, que começaram a aderir à então chamada Agricultura Alternativa no início dos anos 1980, quando produzir sem venenos parecia apenas uma ingênua utopia. “Era romantismo, era coisa de maluco, dos hippies”, lembra a agricultora Erenilda Ferreira Guio, presidente da Vero Sapore – Associação de Produtores Agroecológicos e Orgânicos de Iconha, no sul do Espírito Santo. “Hoje as pessoas, até da própria comunidade aqui, estão vendo com outros olhos, que o futuro é esse”, observa.

Os pequenos ainda são a maioria, cerca de 90% do total, e a adesão continua se dando principalmente a partir do contato com uma organização ou movimento da sociedade civil, os mesmos “malucos” de 30 anos atrás. Geralmente a conversão não é individual, acontece com um grupo, organizado em uma associação ou cooperativa. A comercialização, via de regra, se dá nas feiras livres, especializadas ou não.

Uma vertente ainda mais ousada entre os pequenos produtores agroecológicos comercializa seus produtos sem a necessidade dos selos das certificadoras, antecipando dois mecanismos criados recentemente pelo Decreto 6.323/2007, que regulamenta a comercialização de orgânicos no país. Sem ter de pagar pelos altos custos dos selos, os agricultores conseguem atingir preços que cabem no bolso da maioria das famílias.

O associativismo e o atendimento às populações menos economicamente favorecidas reflete um diferencial fundamental da agroecologia verde-amarela. Aqui, muito mais do que uma forma de produzir alimentos sem agrotóxicos, ela agrega compromisso com a segurança alimentar, o fortalecimento da agricultura familiar, a Reforma Agrária e outras lutas sociais, como a igualdade entre gêneros e etnias, a educação e a habitação camponesa dignas. Diferente da Europa, onde o objetivo é apenas atender aos consumidores de alta renda, que buscam uma alimentação mais saudável e que agrida menos o meio ambiente.

Do pequeno ao grande

Hoje balzaquiana, a agricultura orgânica tupiniquim começa a agregar também uma linha mais mercadológica, típica do Hemisfério Norte. Os protagonistas são os médios e grandes produtores, que buscam atender exatamente ao mercado externo e, internamente, às grandes redes de supermercados.

Engana-se, no entanto, quem pensa que não vender em Dólar, Euro ou cartão de crédito torna a Agricultura Orgânica menos vantajosa que a convencional. Pergunte a qualquer pequeno agricultor orgânico se ele está mais satisfeito financeiramente. Em 100% das vezes, a resposta será sim. Um exemplo vem de Santa Maria de Jetibá, município que mais produz orgânicos no Espírito Santo, estado na quarta posição do ranking nacional de produtores. Avelino Schilieve conta que sua primeira safra de morangos orgânicos lhe rendeu quase R$ 2 mil de lucro, enquanto as anteriores, convencionais, sempre lhe davam prejuízo.

Estudo apresentado no último Congresso Brasileiro de Agroecologia (2007) pelo engenheiro agrônomo João Antonio Motta Neto mostrou que, das 12 culturas analisadas (abóbora, batata-baroa, batata-doce, batata-inglesa, cenoura, couve-flor, inhame, morango, pimentão, quiabo, repolho e tomate) entre os anos 2001 e 2004 na região serrana capixaba, as únicas exceções foram o morango, entre 2001 e 2003, e a couve-flor em 2003. Todas as demais apresentaram maior lucratividade ao produtor orgânico que ao convencional. Os orgânicos também mantiveram preços estáveis durante o ano, ao contrário dos convencionais, que sofreram oscilações mensais. “Isso permite ao agricultor planejar melhor a sua produção, mesmo que em alguma época do ano seja aparentemente mais interessante vender os seus produtos como convencionais”, observa João.

As vertentes orgânica e ecológica, que são a melhor solução para a saúde e à conservação da biodiversidade – ao lado agricultura natural, biodinâmica e similares – revelam-se cada vez mais também um excelente negócio para quem busca enveredar por um mercado em franca expansão, trabalhando com um produto diferenciado, com alto valor agregado e, para usar uma palavra da moda, “sustentável”.

E por falar em sustentabilidade, os orgânicos dão banho também em outro assunto da moda: eficiência energética. Jacimar Luís de Souza, pesquisador em Agroecologia pelo Incaper – Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (ES), um dos maiores especialistas do país, chama atenção para os números.

Em um estudo realizado com dez culturas (abóbora, alho, batata, batata-baroa, batata-doce, cenoura, couve-flor, repolho, taro e tomate) produzidas na região centro-serrana do Espírito Santo, entre 1991 e 2000, o balanço energético (quantidade de energia produzida por um sistema dividido pela quantidade de energia consumida durante a produção) dos orgânicos foi, na média, de 2,78, enquanto que o dos convencionais foi de 1,93. Ou seja, para produzir 1 kcal de alimento, o sistema orgânico consome apenas 0,36 kcal, enquanto o convencional precisa de 0,52. Considerando porém a eficiência energética da produção orgânica apenas até a fase de colheita (desconsiderando embalagem e frete), o balanço aumenta de 2,78 para 4,66 (0,21 kcal consumida pra cada 1 kcal produzida).

O estudo menciona, ainda, que o Brasil gasta em média 2,6 Kcal para produzir 1 kcal de alimento (balanço de 0,38). É muita energia gasta. Mas nos Estados Unidos, são necessários 9,0 Kcal e no Japão 12,0 Kcal (balanços energéticos de apenas 0,11 e 0,08 respectivamente!).

Petróleo e desinformação

Jacimar também alerta que toda esta energia, em sua maioria, é baseada em combustíveis fósseis não-renováveis, ou “produção de alimentos a qualquer custo”. Ao contrário, “a expansão das áreas de agricultura orgânica provocará uma elevação do estoque de carbono nos solos, capturando gás carbônico e minimizando as emissões de gases de efeito estufa, reduzindo o aquecimento global do planeta”, aconselha.

O uso excessivo do petróleo e os perigos dos agrotóxicos utilizados na agricultura industrial foi amplamente denunciado pela primeira vez na década de 1960 pela jornalista Rachel Carson, em seu livro clássico Primavera Silenciosa. Até hoje, no entanto, a população em geral tem muito menos informação do que deveria. É muito pouco conhecida, por exemplo, a origem bélica dos agrotóxicos, o apoio que a chamada Revolução Verde recebeu de governos e de instituições internacionais como a FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, ou curiosidades como o fato de a criação do DDT, um dos mais terríveis agrotóxicos já sintetizados, ter rendido ao químico suíço Paul Muller o Prêmio Nobel da Paz em 1948.

É subestimada também a superioridade dos orgânicos quanto ao sabor e o valor nutritivo. Sim, porque além de não conterem substâncias tóxicas e cancerígenas, os orgânicos têm mais nutrientes e mais sabor. Em média, contêm 29,3% mais Magnésio, 27% mais Vitamina C, 21% mais Ferro, 13,6% mais Fósforo, 26% mais Cálcio, 11% mais Cobre, 42% mais Manganês, 9% mais Potássio e 15% menos nitratos. Culturas orgânicas como espinafre, alface, repolho e batatas apresentam uma superioridade nutricional ainda maior.

A desinformação é tanta que, seja nos relatórios da FAO ou nas atas de reuniões dos Conselhos Territoriais do Mapa, a divulgação junto ao consumidor é apontada como uma das prioridades para o fortalecimento do setor, ao lado de incentivo a pesquisas científicas, assistência e extensão rural especializada e acesso a crédito.

A visão é de que informação é fundamental pra ajudar à massa de consumidores brasileiros a mudarem seus hábitos e escolherem entre os dois caminhos hoje possíveis pra entrar no time dos orgânicos: investir tempo ou dinheiro. No supermercado é rápido e caro. Nas feiras é barato, mas precisa acordar cedo e bater perna. É isso ou continuar fazendo de conta que os agrotóxicos são mesmo um mal necessário e que esse negócio de orgânicos e ecológicos é só pra rico e gringo, coisa de maluco, de hippie

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